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Minha infância no Hospital

Minha infância no Hospital

A Edilceia foi uma de nossas pacientes, que ainda pequena, teve que morar no hospital para realizar tratamento de uma enfermidade na garganta. Ela ficou internada junto com as crianças do Clube da Soda, onde era atendida pelo Dr. Hélio Brandão, que cuidava das crianças que ingeriam acidentalmente soda cáustica. Sua história nos ensina que não há idade para ser resiliente.

Meu nome é Edilcéia, nasci no dia 10 de outubro de 1971 em Campo Mourão. Meus pais são Isaías e Namires. Logo que nasci, foi descoberta uma enfermidade na minha garganta. Meus pais me levaram ao hospital em Campo Mourão, onde fui encaminhada para Curitiba, no Hospital Nossa Senhora das Graças. Consultei com o Dr. Hélio Brandão e fui diagnosticada com carne esponjosa na garganta (Papiloma).

Minha mãe ficou alguns dias comigo no Hospital, mas chegou um momento em que as enfermeiras disseram a ela que não poderia mais ficar ao meu lado. Como não tínhamos parentes ou amigos em Curitiba, minha mãe teve que me deixar e procurar um lugar para ficar hospedada. Ela encontrou um senhor na rua, pediu informações a ele e descobriu que sua filha também estava internada no mesmo hospital. Nesse momento, ele procurava alguém para ajudar em casa, então sugeriu que minha mãe ficasse na casa deles para ajudar sua esposa. Minha mãe aceitou a proposta e trabalhou lá por um mês, visitando-me durante esse período.

Após 30 dias, ela se despediu de mim no hospital e voltou para Campo Mourão, onde tinha meu pai e minha irmã de 4 meses para cuidar. Minha mãe contou que foi difícil me deixar nessa situação, mas não havia outra opção. Como a comunicação naquela época era difícil, meus pais aguardavam notícias por correio ou ligavam para o hospital quando possível.

Assim, fiquei nas mãos das enfermeiras e do saudoso Dr. Hélio Brandão, que me cuidaram com carinho. Iniciei o tratamento, passando por cirurgias a cada 15 dias durante 4 anos, com traqueostomia. Ao longo desses anos, enfrentei muitas paradas cardíacas, fui entubada, junto a outras quatro crianças (lembro o nome de apenas um, o Jair) que também tinha o mesmo problema na garganta. Infelizmente, uma delas não resistiu à cirurgia, e ficamos em quatro crianças no quarto.

Éramos considerados irmãos e brincávamos juntos no hospital, íamos no parquinho, nos berçários (onde aprendi a trocar a fralda dos nenéns com as enfermeiras). Aos poucos, fui aprendendo a lidar com a situação. Minha mãe sempre teve fé em Deus e esperança de que eu melhoraria. Recebia visitas esporádicas dos meus pais, pois eles não tinham condições financeiras para estar sempre comigo. Uma vez que minha mãe chegou para me visitar, eu não lembrava mais dela, chamava ela de tia, ela falava: não sou sua tia, sou sua mamãe. Lembro-me de ganhar uma boneca beijoca de Natal, um dos momentos felizes durante minha estadia no Hospital.

Em 1976, meu pai passou em um concurso da Copel em Curitiba, facilitando ainda mais as visitas. A cada três dias, ele estava lá, e a pergunta recorrente era: “Depois de amanhã, o pai vem?”. Essa brincadeira continua até hoje.

Em 1977, o Dr. Hélio Brandão autorizou que eu fosse almoçar aos domingos na casa dos meus pais para me familiarizar com a vida em família – nessa época já tinha duas irmãs, Enilcéia e Edineia. Almoçávamos juntos, tiramos fotos em um estúdio fotográfico e eu retornava ao HNSG. Essa rotina durou cerca de seis meses. Após 5 anos e meio, finalmente comecei a falar, antes apenas me comunicava colocando o dedo na traqueia – minhas filhas falam que tudo que eu não falava quando era criança, falo agora (risos).

Recebi alta e retornei para casa, mas foi difícil me adaptar à vida familiar. Eu ansiava por voltar ao Nossa Senhora das Graças, chorava e gritava, querendo voltar à minha “casa”. Os vizinhos vinham me consolar, mas minha mãe insistia que aquela era a nossa casa. Aos poucos, fui me adaptando, mas ainda carregava o trauma da cicatriz na garganta, o que me fazia usar roupas de gola alta para escondê-la. Um ano depois fomos morar em Campo Mourão, e para nossa alegria, veio mais uma irmãzinha, Edilene, eu ajudava minha mãe a cuidar dela, trocava a fralda, ensinei minha mãe a dobrar a fralda como tinha aprendido no Hospital, fazia chazinho de camomila, fui me adaptando.

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Aos 14 anos, retornei ao Dr. Hélio Brandão para fechar a cicatriz – pois desde que foi retirada a traqueostomia, ela ficou aberta, ao tomar banho tinha que fechar com o dedo para não entrar água e me afogar. A felicidade do médico ao ver que eu estava curada era incrível. Durante a adolescência, continuei usando roupas para esconder a cicatriz, mas aos poucos fui superando esse complexo.
Fiz três cirurgias plásticas, mas elas não resolveram completamente. Hoje, não tenho mais vergonha da cicatriz, que se tornou uma parte importante da minha história – uma marca que mostra o quando fui guerreira ainda criança. Sou grata a Deus por me libertar dessa terrível enfermidade. Atualmente sou casada com Elias, mãe de duas filhas já casadas – Keiciany e Tamires, e avó da Gabriela e da Manuela.

Minha mensagem

Agradeço eternamente à equipe do Hospital Nossa Senhora das Graças, que foi como uma família para mim durante minha infância. O Hospital foi meu lar, e sou grata às Irmãs e ao saudoso Dr. Hélio. Atualmente, moro em Pato Branco, PR, sou da Congregação Cristã no Brasil, e dedico meu tempo ao lar, fazendo artesanatos e pinturas em tecidos e quadros. Sou uma pessoa extrovertida e amada por todos. Se eu escrevesse um livro, seria “Minha infância no hospital, eu venci e você também pode vencer, todos nós venceremos”.

Edilcéia Werneck Pereira Rosa